Estamos impermeáveis a vida
- Shely Pazzini
- 7 de fev. de 2022
- 3 min de leitura
Quando nos dispomos a ter uma vida simples sem simplismo, acompanhando os processos completos e observando com atenção o desdobramento de cada pequena coisa, percebemos que este é o oposto completo do que aprendemos e fizemos até aqui.
Aprendemos que quase tudo pode ser substituído por algo produzido dentro de uma indústria.
Que não precisamos escolher o que promove a nossa saúde porque tem remédios e hospitais para tirar sintomas que desagradam.
Aprendemos que o sol é nocivo, e que importante mesmo é ter uma pele sem manchas e sem rugas - então entupimos nossos poros com produtos artificiais e tóxicos para evitar que os raios solares cheguem até nós.
Aprendemos que não podemos andar descalços e, desde os primeiros passos colocamos plásticos embaixo dos nossos pés e passamos a vida sobre eles, sem contato algum com o solo vivo.
Aprendemos a construir casas que parecem sarcófagos, e a nos aglomerar em cidades.
Aprendemos que água precisa ser tratada tratada Aprendemos que tudo bem bebê-la com todos os produtos químicos que foram adicionados.
Aprendemos que agrotóxicos são essenciais para promover a produção de alimentos no mundo e que benefício é maior que o dano causado.
Aprendemos a aceitar tudo o que oferecem sem questionar - afinal todos estão trabalhando em prol da saúde e do desenvolvimento coletivo - vendem coisas que são misturas de nada com coisa nenhuma, adicionadas de cor, sabor e cheiro, conservantes e inúmeros outros "antes", e intitulam isso de alimento - e compramos e comemos como se realmente fossem.
Aprendemos que os reinos naturais estão aqui para nos servir e que podem ser explorados indiscriminadamente, sem respeito e sem desdobramentos. Aprendemos que o corpo é uma máquina que deve apresentar sempre os mesmos resultados de produtividade, e que sentimentos, pensamentos e emoções são separados dele.
Aprendemos que a natureza é perigosa, então criamos modos de vida estéreis, sem contato nenhum com nada natural. Aprendemos que os produtos "nascem" nas prateleiras dos mercados e que tendo dinheiro temos tudo o que precisamos. Aprendemos a ouvir qualquer coisa, assistir qualquer coisa, ler qualquer coisa e não queremos ter uma vida qualquer.
Nos tornamos impermeáveis a vida. Incapazes de criar relações positivas com o que nos rodeia, de fazer conexões reais que sejam benéficas.
Adoecemos como humanidade, por termos nos dissociado da realidade que nos sustenta integralmente e ter criado sistemas artificiais numa total fragmentação da vida.
Estamos todos em pedaços - separados, apartados da totalidade que somos - desesperados em busca de algo que nos salve desse buraco em que nos enfiamos.
Interagir com a natureza não é algo para se fazer num passeio - isso não é interação, é distração. Interações reais se fazem no dia a dia, acompanhando e auxiliando os processos a ocorrerem da melhor maneira possível.
A natureza somos todos nós, ela não está num lugar separado de mim ou de você. Essa separação aconteceu pelas escolhas que fizemos que nos colocaram em locais onde a nossa própria natureza não tem espaço para se manifestar.
De fato, nos tornamos máquinas - autômatos, que fazem sem questionar, que correm atrás de dinheiro como bons consumidores que as mentes do lucro queriam e com sucesso conseguiram.
A vida real nem de longe é isso, essa terceirização de responsabilidades está distante de trazer alguma evolução a alguém.
Contrário ao que falam, vejo o progresso e a tecnologia como um enorme retrocesso simplesmente por terem nascido de pedaços separados de uma totalidade já perfeita.
Quando tivermos a oportunidade de nos desenvolver tecnologicamente de maneira integrada, o progresso se fará de uma maneira natural, completamente diferente do que vemos, e sua convergência será de harmonia e paz, não mantendo o caos e o sofrimento conhecido.
Permanecer impermeável a vida é uma escolha. Acordar a vida, romper com os equívocos e escrever uma nova história, também.
O que você escolhe?

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